O Embate
O Embate
Petra aproximou-se de Dorn com a cadência exata de quem conhece o próprio efeito. A taça de cristal girava entre seus dedos com precisão ensaiada. À luz das velas, o olhar que lhe dirigiu tinha o mesmo brilho cortante do esmalte carmim que vestia suas unhas.
— Doutor Dorn — disse, num tom baixo e perfeitamente controlado. — Que surpresa encontrá-lo fora de seu habitat natural. Confesso que imaginei que ambientes em que as mãos precisam permanecer limpas não lhe fossem… confortáveis.
Dorn não alterou a postura. O copo de uísque permaneceu firme entre seus dedos; o gelo tocando o vidro produziu um som seco — a única concessão ao ruído entre os dois.
Ele sustentou o olhar dela antes de responder.
— O dia é para quem constrói, Petra. — A voz saiu calma, quase desinteressada. — A noite, pelo que percebo, é território de quem prefere consumir o que outros levantaram.
Não houve elevação de tom. Não houve sorriso. Apenas um silêncio denso o bastante para que ambos soubessem: aquilo não era conversa. Era medição.
Ele manteve a voz plana. Não discutia; registrava.
Petra riu baixo, sem alterar a expressão. Aproximou-se o suficiente para impor presença. O perfume era deliberado.
— Cuidado, Dorn — disse, suave. — Aqui as regras não são fixas.
Ele não recuou.
— Regras raramente são o problema, Petra. O problema costuma ser quem acredita poder reescrevê-las sem consequências.
Ela sustentou o olhar, avaliando.
— Hans me contou que você é… indispensável. — fez discretas aspas no ar, o sorriso ampliando-se com delicada crueldade.— Mas você sabe como isso funciona. Estruturas passam por revisão. Funções são redistribuídas. O que era essencial ontem pode não ser amanhã.
Dorn girou o gelo no copo, o som seco marcando o intervalo.
— Revisões exigem conhecimento técnico. Alterações feitas por impulso costumam comprometer a base.
Um silêncio breve.
— Esta casa já responde a mim — disse ela, sem elevar o tom.
— Casas respondem a quem as sustenta — replicou ele. — O resto é fase.
Os dois permaneceram imóveis por um segundo além do aceitável. Não havia confronto.
Dorn sustentou o olhar dela. Nenhum traço de irritação — apenas uma frieza que não precisava se afirmar.
— Madame — disse, com polidez impecável. — A senhora veste o papel com convicção. O que me chama a atenção é a pressa.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Hans é generoso. Confunde intensidade com verdade. Entrega confiança antes de exigir prova. É um traço admirável… e perigoso. — A pausa foi mínima. — Felizmente, nem todos nesta casa compartilham dessa disposição.
Não houve aumento de tom. Não houve gesto brusco. Apenas a colocação de um limite invisível.
Petra demonstrou preocupação por um instante — mínimo. Quando voltou a falar, já não havia cordialidade no olhar.
— Refaça seus planos, doutor O cenário mudou. No meu organograma não há espaço para quem vive do passado. Esta casa agora tem uma dona. Sou eu quem decide quem entra… e quem permanece.
Dorn levou o uísque à boca, sem pressa.
— Quem assume o controle rápido demais costuma desconhecer o terreno que pisa.
Ela manteve o queixo erguido. Ele continuou:
— Isabel do Bixiga aprendeu depressa a sustentar essa postura. Quase não se percebe o esforço.
O nome pairou entre os dois.
— Aproveite a lagosta — disse, ajustando o copo entre os dedos. — Ela também chega à mesa convencida da própria importância. — Uma pausa curta. — Depois, resta apenas a carapaça.
Ele inclinou a cabeça com polidez intacta.
— Excelente noite, Madame.
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