O spoiler sutil 3
São Paulo, 1994. (Hans 62 anos aqui) Cinco anos haviam se passado desde que as marretas trituraram o concreto em Berlim. Aos sessenta anos, Hans tornara-se figura imponente e respeitada no cenário paulistano. Seu português era agora fluente e exato, embora o sotaque germânico persistisse — uma musicalidade áspera que os funcionários imitavam pelas costas, não por deboche, mas por um afeto quase filial por aquele patrão que, apesar da rigidez, exercia uma justiça inabalável. Naquela manhã, porém, a paz do escritório sofreu uma fissura quase imperceptível. A secretária entrou na sala com o rosto pálido e a voz vacilante. — Dr. Arthur… há um senhor na recepção procurando pelo senhor. Fala português, mas com um sotaque alemão bem acentuado. Insiste que precisa vê-lo imediatamente. O sangue de Hans gelou. Uma antiga paranoia — que ele acreditara sepultada sob camadas de sucesso, concreto e respeitabilidade — despertou dentro dele como um animal que jamais dormira de verdade. Ser...