The subtle spoiler
The subtle spoiler
Noite de Surpresas
Para aquela noite, Eugênia havia preparado a sala íntima de jantar. Sabia que seria um ambiente mais apropriado do que o grande salão da casa, reservado apenas para jantares de gala e ocasiões em que o número de convidados exigia maior aparato.
Ali, tudo parecia mais humano, mais próximo. A luz era mais suave, o silêncio menos solene, e a mesa — cuidadosamente posta — permitia que uma conversa acontecesse sem a distância imposta pelas formalidades da casa.
Eugênia conhecia bem aquela diferença. Sabia que certos momentos pediam grandeza; outros, discrição. E, naquela noite, por alguma razão que ela mesma não saberia explicar inteiramente, parecia-lhe que a intimidade era a escolha mais adequada.
A mesa estava arrumada e decorada com um primor digno das antigas casas da nobreza. Dois lugares.
Eugênia e mais duas auxiliares de copa e cozinha — moças ainda muito jovens, mas que já lutavam pelo sustento — aguardavam que os senhores se sentassem. Era ritual. Só então ela anunciaria o menu e perguntaria qual vinho deveria trazer para servir.
— Senhores — disse Eugênia, em seu tom ao mesmo tempo meigo e decidido —, para a ceia de hoje teremos Salmão Atlântico Grelhado ao Toque de Alcaparras Suaves como prato principal.
Fez um pequeno aparte:
— Achei mais apropriado, menos pesado para o doutor Arthur. O salmão será acompanhado por uma salada de rúcula, pera e nozes com vinagrete de champagne. A sobremesa será sorvete de iogurte grego com mel de lavanda e pistaches. Posso mandar servir, Arthur?
O descuido protocolar — a omissão do título de doutor que sempre precedia o nome de Arthur — soou, para ouvidos atentos, como algo muito mais íntimo do que Eugênia certamente pretendia demonstrar.
Dorn percebeu no mesmo instante.
Um sorriso lento e descaradamente satisfeito surgiu em seu rosto quando lançou um breve olhar para Hans, como quem silenciosamente confirma uma hipótese. Sua percepção raramente falhava.
As duas auxiliares que serviriam a ceia ficaram repentinamente lívidas. A juventude ainda não lhes ensinara a arte de disfarçar pequenas catástrofes sociais. Permaneceram imóveis, segurando as travessas com os antepastos que deveriam preceder a ceia, como se fossem objetos sagrados que não podiam, em hipótese alguma, cair.
Eugênia, ao contrário, enrubescera profundamente. A cor subiu-lhe ao rosto com a rapidez de uma chama inesperada. Percebeu o que havia dito apenas um segundo tarde demais — e esse segundo pareceu-lhe um abismo.
Endireitou levemente os ombros, como quem se prepara para enfrentar um julgamento silencioso.
Já começava a se desculpar, procurando as palavras com cuidado, quando Hans a interrompeu com sua peculiar gentileza.
— Eugênia, não há motivos para se desculpar. Apenas não sirva a ceia ainda, porque teremos um terceiro lugar à mesa esta noite. Uma das meninas poderia nos trazer o conhaque que deixamos na biblioteca, por gentileza? Tenho certeza de que o doutor Alberto apreciará.
Eugênia pareceu confusa e então perguntou:
— Além desse, há algum outro motivo especial para não servir agora? Porque, se a sugestão não agradou, posso providenciar algo que esteja mais alinhado com suas expectativas, doutor Arthur.
Hans respondeu com tranquilidade:
— O menu está excelente. Você acredita nele, não é?
— Sim, plenamente, Arthur. Cuidei pessoalmente de cada detalhe.
Dorn serviu-se de mais uma dose do conhaque que já repousava sobre a mesa. Fez o gesto com calma estudada, como quem saboreia não apenas a bebida, mas também o pequeno espetáculo social que acabara de presenciar.
Ergueu os olhos para Hans e lhe lançou um sorriso carregado de sarcasmo — um daqueles sorrisos discretos que diziam muito mais do que qualquer comentário em voz alta.
Mais um deslize de Eugênia. Outro pequeno acidente de protocolo que, para Dorn, tinha o valor de uma confissão involuntária. A cada palavra mal contida, a cada título esquecido, os sentimentos da governanta se tornavam um pouco mais visíveis. Ou melhor — corrigiu mentalmente — seus sentimentos por Hans. Ou por Arthur.
— Bem, em face disso, só lhe peço uma coisa.
— Peça, doutor Arthur. Estou aqui para lhe atender — disse ela em tom solene.
— Então agora vá aos seus aposentos, vista a roupa mais simples e confortável que tiver e volte, sem pressa. Nós a esperaremos com prazer. Você será o terceiro lugar à mesa.
Eugênia, pasma, ainda tentou argumentar:
— Mas, doutor...
Hans a interrompeu novamente.
— É um convite, Eugênia.
Ainda com a surpresa estampada no rosto — uma surpresa que trazia consigo algo de pudor, algo de incredulidade e uma alegria tão inesperada que ela mal ousava reconhecer — Eugênia permaneceu imóvel por um breve instante. Seus olhos ergueram-se naturalmente em direção a Hans, como se buscassem nele a confirmação de que aquele gesto de delicadeza não era apenas fruto de sua imaginação.
Havia ali, naquele olhar rápido e silencioso, a revelação involuntária de um afeto antigo, cuidadosamente guardado no lugar mais íntimo de sua alma.
Incapaz de encontrar palavras que não traíssem o turbilhão que lhe passava pelo coração, limitou-se a inclinar levemente a cabeça. Ainda tomada por uma emoção que lutava para manter sob controle, assentiu.
Ela acionou o ar-condicionado e encostou gentilmente a porta da sala de jantar ao sair.
A julgar pelas palmas que recebeu ao cruzar a cozinha, antes de seguir pelo pátio interno em direção aos seus aposentos, a notícia se espalhara com rapidez — e, ao que parecia, também fora muito bem recebida. Enquanto caminhava apressada, levava o indicador aos lábios, pedindo aos funcionários que ainda jantavam a discrição devida.
Hans e Dorn ouviram, deduziram… e se divertiram.
— Não lhe disse?
— Você tem um faro infalível, de fato. Mas pode ser apenas uma admiração platônica. Nada mais.
Dorn soltou uma breve risada.
— Você é bom em tudo o que faz, Hans. Mas ainda olha para as mulheres com o fantasma de Petra assombrando seus pensamentos. Limpe a mente e dê-se ao luxo de arriscar um grande amor. Um verdadeiro amor é coisa para os corajosos — e coragem, eu sei, não lhe falta.
Fez uma pausa e ergueu o copo de conhaque.
— Aproveite os novos ares, meu amigo. Você ainda tem muita vida pela frente.
Os dois permaneceram conversando enquanto se entretinham com o conhaque e alguns antepastos. Dorn, vez ou outra, consultava o relógio — um Rolex Submariner — com uma insistência quase mecânica.
Intrigado, Hans acabou perguntando:
— Mas o que tanto olha nesse relógio, homem? Tem algum compromisso depois daqui?
Dorn sorriu.
— Quanto mais tempo uma mulher demora para se arrumar para um homem, maior é o interesse que ela tem por esse homem. Estou apenas acompanhando esse tempo.
Hans ainda se divertia com a tese quando a porta da sala se abriu suavemente.
Eugênia entrou e a encostou novamente com o mesmo cuidado.
Hans quase se engasgou com o carpaccio. Dorn arregalou os olhos antes de esvaziar o conhaque em um único gole.
Fora do uniforme, Eugênia era ainda mais bela do que Petra jamais fora.
Era uma mulher esbelta, de cerca de um metro e sessenta e cinco. Não devia pesar mais que cinquenta e oito quilos. Havia nela uma proporção harmoniosa, uma elegância natural que o uniforme discreto de concierge mantivera quase invisível durante anos.
Naquela noite, porém, nada havia de invisível.
O vestido tubinho — simples, minimalista, de mangas curtas e corte reto levemente ajustado — descia até a altura dos joelhos, valorizando com discrição sua silhueta. Era de um vinho profundo, tonalidade que contrastava delicadamente com sua pele clara e fazia ressaltar o verde sereno de seus olhos.
Os sapatos, de salto moderado e desenho elegante, acrescentavam alguns centímetros à sua estatura sem exagero. Eugênia não era alta como Petra, mas tampouco era pequena. Havia nela uma medida exata de proporção.
Seus cabelos, castanhos claros, sedosos e brilhantes, caíam agora soltos sobre os ombros. Hans jamais a vira assim.
A surpresa que antes pertencera a Eugênia agora parecia ter mudado de lado. Hans e Dorn permaneceram observando por um instante.
Como verdadeiros cavalheiros, levantaram-se. Hans afastou a cadeira para que ela se sentasse.
Dorn consultou o Rolex mais uma vez.
Hans percebeu.
— Cinquenta e cinco minutos exatos — murmurou Dorn, satisfeito. — Tese comprovada.
Eugênia sorriu, um pouco confusa, imaginando tratar-se apenas de alguma conversa anterior.
A ceia foi servida.
Às vezes, as melhores celebrações nascem justamente de gestos simples.
Naquela noite, Hans não escolheria o vinho. Tampouco Dorn daria qualquer palpite. O doutor Arthur concedera o privilégio à convidada de honra.
Eugênia pensou por um instante antes de decidir.
Durante anos servira mesas como aquela. Vira passar rótulos célebres, ouvira conversas sobre safras, regiões e vinhedos distantes. Aprendera em silêncio, como quem recolhe fragmentos de um mundo ao qual nunca imaginara realmente pertencer.
— Poderia, por gentileza, trazer um Puligny-Montrachet? — pediu a uma das auxiliares.
A moça assentiu e desapareceu em direção à adega.
Hans observava tudo com atenção inesperada.
Durante anos Eugênia cruzara silenciosamente os corredores da casa, quase invisível. Naquela noite, porém, havia nela uma segurança tranquila que ele jamais notara.
Pela primeira vez, Hans percebeu que sabia muito pouco sobre aquela mulher. E isso o intrigou.
Dorn também percebeu. Sem dizer palavra, levou o conhaque aos lábios e observou.
Quando o vinho chegou, Dorn assumiu o pequeno ritual do serviço com a precisão de quem respeita tradições. Retirou a rolha, examinou a cor e provou primeiro.
O Puligny-Montrachet revelou-se fresco, mineral e elegante — perfeito para acompanhar o salmão grelhado servido naquela noite.
Mas, para Hans, o vinho já não era o centro da experiência. Ele segurava a taça enquanto seus pensamentos se afastavam discretamente da mesa.
Petra. O nome não foi pronunciado, mas pairava em sua mente como uma sombra conhecida.
Ele a conhecia bem demais para acreditar que aceitara a derrota com serenidade. Jogadores como ela não abandonam o jogo apenas porque uma rodada lhes foi desfavorável.
Dorn sabia disso também.
Homens acostumados à estratégia aprendem cedo que a calma exterior muitas vezes é apenas outra forma de manter a guarda erguida.
Petra fora afastada do centro do jogo. Mas afastar não significava eliminar.
Ela aguardaria. Observaria. E voltaria quando encontrasse o momento certo.
Hans provou o vinho. Impecável.
Mas, por trás da elegância daquela noite, havia agora uma sensação discreta — semelhante à corrente fria que atravessa silenciosamente a superfície calma de um lago.
Uma lembrança silenciosa de que algumas histórias jamais se encerram com um único movimento.
Eugênia também provou o vinho. Fechou os olhos por um instante, deixando que o sabor se espalhasse lentamente. Quando voltou a abri-los, encontrou Hans observando-a. Os olhos dos dois permaneceram presos por um segundo além do necessário. Não houve palavras. Nem eram necessárias.
Porque certas coisas começam exatamente assim: num jantar tranquilo, num olhar que se prolonga um pouco mais do que deveria, num silêncio inesperadamente confortável.
E, às vezes, também na vaga — quase imperceptível — sensação de que duas vidas, que até então caminhavam em paralelo, acabam de reconhecer uma na outra uma direção comum.
Dorn foi o primeiro a quebrar o silêncio.
Girou lentamente a taça entre os dedos, observando o vinho como se examinasse uma gravura delicada.
— Excelente escolha — disse por fim, olhando para Eugênia com um respeito que não precisava de exageros. — Um branco da Borgonha exige certa coragem numa mesa como esta.
Eugênia sorriu, um pouco surpresa com o comentário.
— Coragem?
— Naturalmente. — Dorn levou o vinho aos lábios. — Homens costumam escolher vinhos que se parecem com eles: estruturados, pesados, um pouco teimosos. — Fez um gesto leve em direção a Hans. — Tintos piemonteses, por exemplo.
Hans ergueu uma sobrancelha.
— Estou sendo atacado à minha própria mesa?
— De forma absolutamente científica — respondeu Dorn, com serenidade.
Eugênia riu. Um riso leve, que pareceu aliviar o ar da sala.
— Meu pai dizia que os brancos da Borgonha têm algo que poucos vinhos conseguem explicar — disse ela, girando delicadamente a taça. — Elegância sem necessidade de força.
Hans apoiou os cotovelos na mesa, observando-a com atenção.
— Seu pai entendia de vinho?
— Entendia de silêncio — respondeu ela, com simplicidade. — O vinho veio depois.
A frase pairou na mesa por um instante.
Dorn percebeu imediatamente que Hans também a sentira.
Havia algo naquela mulher que não se revelava de uma vez — como certos vinhos que precisam de tempo antes de mostrar sua verdadeira natureza.
Ele levou novamente a taça aos lábios, disfarçando o sorriso.
Do lado de fora da mansão, o vento leve fazia as folhas das árvores do jardim se moverem suavemente. A cidade continuava viva além dos muros — buzinas distantes, o rumor constante de São Paulo — mas ali dentro o tempo parecia correr em outro ritmo.
Hans voltou a olhar para Eugênia. Não como quem observa uma presença familiar da casa. Mas como quem começa, pela primeira vez, a perceber uma mulher.
Dorn deixou a taça repousar por um instante sobre a mesa, como quem concede ao vinho o tempo necessário para respirar. Depois voltou-se levemente para Eugênia.
— Então seu pai era piemontês?
Ela assentiu, com um brilho tranquilo nos olhos.
— De uma aldeia pequena perto de Alba. Ele costumava dizer que as colinas de lá parecem ter sido desenhadas por alguém que amava o vinho mais do que a geometria.
Hans sorriu de leve.
— Como se chamava seu pai?
Eugênia ergueu os olhos para ele.
— Stephano Zuccini.
Hans repetiu o nome lentamente, como se experimentasse o som.
— Stephano Zuccini… — disse. — Isso explica a escolha desta noite.
Eugênia inclinou a cabeça.
— Explica?
— Explica gosto — respondeu ele. — E um certo... critério.
Dorn observava os dois com a serenidade de quem acompanha uma partida de xadrez cujo desfecho já começou a se desenhar, embora ainda ninguém na mesa tenha percebido.
— No Piemonte — disse ele, voltando-se novamente para Eugênia — os homens costumam aprender cedo duas coisas importantes: paciência e silêncio. Ambas são necessárias para fazer um bom vinho.
Ela girou a taça com delicadeza.
— Meu pai falava muito disso. Dizia que o vinho ensina que nem tudo precisa acontecer depressa.
— Um homem sábio — murmurou Dorn.
Houve um breve silêncio. Não desconfortável — apenas cheio.
Hans apoiou os braços sobre a mesa, olhando para Eugênia com uma curiosidade que já não fazia esforço para disfarçar.
— E ele aprovava esse seu talento para escolher vinhos?
— Ele dizia que eu ainda precisava aprender a escolher melhor as pessoas — respondeu ela, com um sorriso suave.
Dorn deixou escapar um pequeno riso.
— Conselhos paternos costumam ser perigosamente precisos.
Hans lançou-lhe um olhar de advertência discreta, mas Dorn limitou-se a erguer a taça num gesto inocente.
— Não se preocupe, Arthur — disse, usando o nome com naturalidade impecável. — Estou apenas admirando o equilíbrio da mesa.
A frase fez Eugênia sorrir novamente, sem perceber inteiramente o jogo que corria sob a superfície da conversa.
Foi então que um detalhe quase imperceptível aconteceu.
A criada que servia o jantar aproximou-se para recolher uma das travessas e, ao fazê-lo, colocou inadvertidamente a garrafa de vinho um pouco longe demais do alcance de Eugênia. Nada grave. Um gesto banal.
Mas Dorn estendeu a mão com tranquilidade e puxou a garrafa para mais perto dela, ajustando-a sobre a mesa como quem corrige a posição de uma peça num tabuleiro.
— Aqui fica melhor — disse apenas.
Eugênia agradeceu com um aceno leve.
Hans percebeu.
Não havia nada ostensivo naquele gesto — nenhuma declaração, nenhum peso dramático. Apenas uma pequena correção de espaço, quase invisível.
Mas Hans conhecia Dorn há tempo suficiente para reconhecer o que aquilo significava. Era assim que ele fazia. Sem palavras. Sem anúncio. Quando Dorn decidia proteger alguém, o mundo ao redor daquela pessoa começava, discretamente, a se reorganizar.
Eugênia permaneceu alguns instantes em silêncio depois do comentário de Dorn, como se pesasse se devia ou não acrescentar algo mais. A luz morna da sala de jantar refletia no cristal das taças e desenhava sombras suaves sobre a mesa.
Então ela voltou os olhos para Hans.
— Imagino que os últimos dias não tenham sido fáceis para o senhor — disse com delicadeza, sem curiosidade excessiva, apenas com uma espécie de compreensão tranquila.
Hans inclinou levemente a cabeça, aceitando a observação sem comentá-la. Havia gratidão naquele gesto contido.
Eugênia respirou devagar antes de continuar.
— Eu também fui casada.
A frase veio simples, quase serena.
Hans ergueu os olhos com atenção imediata, mas sem interrompê-la.
— Não tivemos filhos — prosseguiu ela. — Durante muito tempo achei que aquilo fosse uma espécie de silêncio da vida… mas hoje penso que talvez tenha sido apenas o modo como as coisas precisavam acontecer.
Ela girou a taça de vinho lentamente entre os dedos.
— Eu trabalhava como professora… mais do que devia, na verdade. Meu marido nunca conseguia permanecer muito tempo em emprego algum. Sempre havia um motivo para sair, uma discussão, um chefe injusto, uma oportunidade melhor que nunca chegava.
Havia um leve sorriso em seus lábios, mas era um sorriso de lembrança distante, não de ironia.
— No fim das contas, eu cuidava de quase tudo. Para ele parecia suficiente.
Dorn ouviu sem interromper, os olhos tranquilos, mas atentos.
— Muitas noites — continuou Eugênia — ele ficava com os amigos em algum bar enquanto eu corrigia provas ou preparava aulas. Eu trabalhava cada vez mais… e ele parecia cada vez mais satisfeito com isso.
Hans não desviava o olhar. Não havia pena em sua expressão — apenas uma escuta profunda, rara.
— Até que um dia ele adoeceu.
A voz de Eugênia manteve a mesma calma.
— Cirrose hepática. Os médicos disseram que o corpo dele já vinha pedindo descanso havia anos.
Ela fez uma pequena pausa.
— Não demorou muito.
O silêncio que se seguiu não foi pesado. Era o tipo de silêncio que acompanha histórias que já encontraram seu lugar no passado.
— Sinto muito — disse Hans, com simplicidade. Eugênia assentiu.
— Durante muito tempo eu também senti. Depois percebi que, de certa forma, nós dois havíamos vivido exatamente como sabíamos viver.
Dorn observava os dois em silêncio. E foi então que ele percebeu. Não por uma palavra específica, nem por um gesto evidente. Mas pela maneira como Hans olhava para ela.
Havia algo diferente naquele olhar — uma atenção que não era apenas cortesia, nem apenas curiosidade. Era mais demorada, mais silenciosa, como se cada frase de Eugênia encontrasse nele um espaço inesperadamente aberto.
Hans ainda não parecia ter consciência disso. Mas Dorn conhecia aquele homem havia tempo demais para não reconhecer os sinais.
Vira Hans atravessar guerras, mudar de nomes, abandonar países inteiros sem olhar para trás.
E mesmo assim, agora ali, naquela mesa, envolvida pela luz morna e discreta da sala de jantar, bastava observar a forma quase imperceptível com que ele se inclinava na direção de Eugênia quando ela falava. Era um movimento mínimo. Mas suficiente.
Dorn levou a taça aos lábios, escondendo um leve sorriso.
Hans ainda não sabia. Mas o destino — esse velho arquiteto paciente — acabara de colocar uma nova peça sobre o tabuleiro.
Dorn permaneceu alguns instantes em silêncio depois da história de Eugênia. Girava lentamente a taça entre os dedos, como se examinasse o vinho à procura de uma ideia que ainda não decidira revelar.
Então inclinou-se um pouco na cadeira.
— Curioso… — disse, com aquele tom calmo que costumava anteceder algum comentário menos inocente do que parecia. — O Piemonte sempre me faz lembrar de uma pequena história.
Hans lançou-lhe um olhar lateral. Conhecia bem aquele prelúdio.
— Histórias suas costumam ser perigosas — murmurou.
— Apenas instrutivas — respondeu Dorn, com um leve sorriso. — Muitos anos atrás, logo depois da guerra, quando a Europa ainda estava tentando se lembrar de como respirar normalmente, eu e um amigo viajamos pelo norte da Itália.
Hans ergueu levemente uma sobrancelha, percebendo o jogo.
— Um amigo?
— Um rapaz alemão de temperamento discutível — respondeu Dorn com serenidade. — Tinha o hábito de fazer perguntas demais e confiar de menos nas respostas.
Eugênia deixou escapar um pequeno riso.
— Parece um viajante prudente.
— Excessivamente prudente — disse Dorn. — Naquela viagem passamos alguns dias numa vila próxima de Asti. Havia ali um produtor de vinho muito respeitado na região.
Ele girou a taça.
— A adega dele era impecável. Barris alinhados como soldados, silêncio absoluto… e uma curiosa reputação entre os moradores.
Hans apoiou o braço na mesa, acompanhando a história.
— Que reputação?
— Diziam que, durante a guerra, alguns visitantes estrangeiros apareciam por lá em horários pouco convenientes.
— Estrangeiros? — perguntou Eugênia.
— Ingleses, principalmente — respondeu Dorn com displicência calculada. — Homens discretos, mas muito interessados em mapas, estradas secundárias e certas linhas ferroviárias que passavam pelas colinas.
Eugênia apoiou levemente o queixo na mão, pensativa.
— Durante a guerra — disse ela — o Piemonte era um dos corredores mais ativos da resistência. Muitos vinhedos serviam de abrigo para mensageiros e para gente que precisava atravessar a fronteira suíça.
Dorn voltou os olhos para ela com interesse genuíno.
— Vejo que a senhorita conhece bem a história da região.
— Meu pai falava disso às vezes — respondeu Eugênia. — Nem sempre de maneira direta… mas o suficiente para que eu percebesse que alguns barris guardavam mais do que vinho.
Hans deixou escapar um breve sorriso. Dorn também.
— Exatamente — disse ele. — Aquele produtor piemontês tinha uma virtude curiosa: lealdade absoluta. Recebia visitantes, guardava certos objetos, escondia certas pessoas… e nunca fazia perguntas.
— Uma qualidade rara — observou Hans.
— E perigosamente subestimada — acrescentou Dorn.
Ele bebeu um pequeno gole de vinho antes de continuar.
— O curioso é que, quando a guerra terminou, ninguém jamais conseguiu provar que ele havia feito coisa alguma além de produzir excelentes garrafas de Barbera.
Eugênia sorriu.
— Talvez porque ele tivesse aprendido cedo que algumas coisas funcionam melhor quando ninguém fala demais.
Dorn inclinou a cabeça, satisfeito.
— Exatamente o que pensei quando ouvi a história.
Houve um breve silêncio.
Hans observava Eugênia com uma expressão que misturava surpresa e admiração. Não era apenas a história — era a maneira como ela a acompanhava, como se reconhecesse as entrelinhas com naturalidade.
Dorn percebeu imediatamente. Encostou-se um pouco mais na cadeira.
— Confesso que sempre admirei pessoas capazes de entender uma história… mesmo quando metade dela permanece escondida.
Eugênia sustentou o olhar dele com serenidade.
— Talvez porque metade das histórias importantes da vida seja exatamente assim.
Hans riu baixo.
— Dorn costuma contar essas histórias para testar as pessoas.
— Que acusação grave — disse Dorn, erguendo a taça. — E injusta — acrescentou ele, com ironia suave. — Eu apenas gosto de observar quem presta atenção.
Ele bebeu mais um pequeno gole de vinho. Depois olhou novamente para Eugênia.
E naquele instante ficou absolutamente claro para ele que Hans não estava apenas interessado naquela mulher. Ele estava, sem perceber, começando a confiar nela.
Dorn apoiou a taça sobre a mesa com tranquilidade.
Tudo, pensou ele, tornara-se subitamente mais interessante.
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