Metamorfose
Metamorfose
Se ontem eras de um jeito e hoje és de outro, contempla tua impermanência com entusiasmo, pois, ao contrário daqueles que nunca mudam, estás vivo.
E, se amanhã puderes forjar o aço de tua alma no rubro fogo da paciência e da reflexão, talvez encontres o Caminho do Meio. Porém, estejas desperto: todo dissidente do mundano será julgado por divergir e por declinar da compulsoriedade de escolhas que não mais lhe dizem respeito. Os tolos julgam pela coragem que não possuem; sabem que a inconsciência coletiva — esse abissal desconhecido da essência humana — pode ser usada como a catapulta que arremessa as mais duras pedras da iniquidade.
No dia em que alcançares a temperança, teus pensamentos haverão de navegar pelas calmas e claras águas do equilíbrio. Certamente, poderás reconhecer as meias-verdades, distinguindo-as das grandes mentiras que absorveste, já que a verdade, em sua completude, é algo que se mantém impenetrável e inatingível.
Neste dia, serás capaz de perceber que sempre haverá vozes a te dizer o que e como fazer. Conseguirás também vislumbrar, com clareza, a presença do ego mórbido de personalidades inconclusas, que se revestem pelo verniz da hipocrisia, da eloquência, das promessas e dos conceitos cultivados no solo lodacento das falácias. Reconhecerás as maldades travestidas de bondade, a soberba encoberta pelo manto do conhecimento e a desfaçatez covarde que prescreve a cura para quem não está doente, mas a nega aos que dela carecem. Talvez até encontres o sublime amor no âmago do mais estulto e truculento dos seres.
Neste dia, serás dono de teus propósitos. Os cordames da marionete terão se partido e o boneco ganhará vida; não mais será conduzido pelas mãos dos sorrateiros manipuladores. O medo terá sido despejado de tua mente, que agora, limpa, cede lugar ao questionamento — a força motriz da inteligência transformadora. O que não estiver fundamentado pela luz da razão e da consciência será tido como vácuo.
Por fim, neste dia, terás te iluminado. Serás aquele que jamais permanecerá dividido pelo muro da ignorância, tampouco será mantido sobre ele. Pois, quando a consciência ascende — quando o vertical substitui o horizontal —, todos os muros desabam silenciosamente, liberando o caminho para a sabedoria sem fim.
Sergio Buccini
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